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Caixa vai usar IPOs para pagar Tesouro, diz Pedro Guimarães

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Pedro Guimarães, indicado para comandar a Caixa. Foto: Reuters

Pedro Guimarães, indicado para comandar a Caixa. Foto: Reuters

Pedro Guimarães chegou à sala de reuniões anexa à sala da presidência da Caixa Econômica Federal com expressão tensa, desculpando-se pelos 40 minutos de atraso para a entrevista, que começou quase oito da noite da última sexta-feira, horário normalmente de baixa produtividade na capital federal. “Tinha três reuniões no mesmo horário”, explica, sobre uma agenda que começou frenética às 7h, em seu primeiro dia de agenda à frente do banco público.

Em uma cerimônia de transmissão de cargo no Planalto e outra na Caixa nesta segunda-feira, o economista assume oficialmente o terceiro maior banco do país, com R$ 1,3 trilhão em ativos e mais de 86 mil funcionários. Guimarães fez carreira em bancos de investimentos e quer aplicar a lógica do mercado financeiro privado na instituição: serão ao menos quatro aberturas de capital de subsidiárias, operações de securitização para aumentar o funding para crédito imobiliário e uma revisão geral de contratos — desde sociedades em seguros a campanhas publicitárias. “Temos que mensurar quanto um real de publicidade traz de negócios para a Caixa”, diz.

Ele já chega com uma conta a pagar: uma dívida de R$ 40 bilhões que se arrasta há anos. “Tenho um compromisso com o ministro de pagar a dívida da Caixa ao Tesouro em quatro anos.”

Valor: A listagem em bolsa de subsidiárias é o plano principal da sua gestão para a Caixa?

Pedro Guimarães: É parte de uma série de iniciativas relevantes, mas talvez seja a principal delas no curto prazo. As operações de abertura de capital de seguros, cartões, asset e lotéricas têm como contrapartida um plano de realizar o pagamento de IHCD, o instrumento híbrido de capital e dívida, em quatro anos. Essa dívida é da ordem de R$ 40 bilhões. Esse é um compromisso e uma determinação do ministro da Economia. O processo de venda de participações vem para aumentar governança das empresas, vem para efetivamente aumentar o volume de mercado de capitais e vem também para realizar um pagamento ao Tesouro Nacional de uma dívida que foi utilizada ao longo de muitos anos e que o time econômico acredita que tem que ser paga.

Valor: Então boa parte do caixa das ofertas será para quitar dívida?

Guimarães: Se o banco não fizer as aberturas de capital de subsidiárias, tem que utilizar o lucro para fazer o pagamento. A abertura de capital permite que faça esse pagamento ao longo de quatro anos sem que consuma o lucro. Essa dívida com o Tesouro não tem prazo, mas a ideia deste governo é pagá-la.

Valor: As operações mais adiantadas para esse processo são seguros e cartões?

Guimarães: Sim. Essas ideias de abrir capital não são novidade, tanto que a Caixa Seguridade tem bancos escolhidos no sindicato desde 2015. A diferença é ter a ideia e executar. A ideia da operação da BB Seguridade nasceu da reestruturação da área de seguros em 2008,  com renegociação de contratos.

Foram cinco anos para chegar no IPO em 2013. A operação do IRB também começou a ser maturada lá atrás. Em cartões, a empresa foi criada no fim do ano passado, então já existe um veículo de listagem. Lotérica é uma operação que precisa amadurecer.

Valor: Quanto as quatro ofertas devem movimentar?

Guimarães: Tudo depende de quanto de participação você vai vender e isso ainda não está definido. Prefiro não colocar um valor, o mercado é que vai dizer quanto vale. Esses negócios estão maduros ou têm espaço para crescimento muito relevante? Na minha opinião, esses quatro têm crescimento muito relevante, então isso entra no ‘valuation’. A Caixa é o maior banco do Hemisfério Sul, com 93 milhões de clientes, mas 15 milhões com produtos. É um banco gigantesco mas pouco penetrado na base de clientes. As aberturas de capital são a possibilidade de fazer com que a base seja expandida, buscando crescimento em seguros, cartões, asset e loterias como houve na BB Seguridade, que dobrou o lucro dois anos depois do IPO. De 2016 para 2018, o do IRB também dobrou. Gerando mais foco em cada negócio, gera mais resultado e governança na Caixa.

Valor: Governança para as subsidiárias?

Guimarães: Não só. A comunicação com o mercado não vem só com os IPOs. A Caixa tem 70% do mercado de crédito imobiliário e, para continuar com essa participação, precisará de fontes alternativas aos FGTS e à poupança como funding. E isso passa por securitização. Dificilmente houve nos últimos 30 anos um momento tão propício para desenvolver o mercado de securitização de crédito.

Valor: Qual seria o volume de securitização da Caixa?

Guimarães: O banco tem R$ 500 bilhões em carteira, então se for 10% disso, já estamos falando em R$ 50 bilhões. Não era feito antes porque o patamar de juros restringia ter rentabilidade que atraísse investidores e fosse positivo para a Caixa. Também depende do ritmo de crescimento. Quando você está confortável com o volume de FGTS e poupança, não tem incentivo para buscar fonte alternativa.

Valor: Quais serão os segmentos chave na atividade bancária?

Guimarães: A Caixa continuará sendo o maior banco imobiliário do Brasil, é um banco fundamental para infraestrutura, e um banco que deveria focar pequena e média empresa. Não há razão para Caixa emprestar para companhias que têm acesso ao mercado internacional. Por outro lado, a Caixa é muito menor do que poderia em crédito à pessoa física com consignado, é inexistente no cartão consignado, e isso vai mudar, e também terá atuação mais relevante em microcrédito. Nesse segmento, pode ser uma operação com mesmo racional do Banco do Nordeste, que não utiliza a agência bancária, mas a força de venda e o funding. Mas essa, diferente do consignado, é uma transformação que vai levar bem mais que quatro anos.

Valor: O ministro da Economia fala em redução dos bancos públicos. A Caixa vai encolher?

Guimarães: Quando você reduz o crédito a grandes empresas diminui a carteira corporativa. Na operação imobiliária, quando o banco vende o crédito na securitização, também reduz de tamanho, aí o desafio é renovar essa carteira. É menos um racional de encarteirar por 15 anos e mais de originar esse crédito e vender o recebível.

Valor: O número de agências vai diminuir?

Guimarães: Quanto mais você tiver tecnologia e utilizar meios de pagamento como o cartão consignado, menor a demanda de presença física. É uma tendência mundial e uma tendência do sistema financeiro brasileiro. Não vai ter redução da Caixa além dos demais.

Valor: Qual será a relação entre Caixa e Banco do Brasil? Serão mais distintos ou mais parecidos?

Guimarães: Temos dois dos maiores bancos do Brasil com o mesmo controlador. Uma discussão que ainda não se iniciou formalmente é se, tirando a dinâmica de produtos, mas do ponto de vista de compras, transporte de valores, que é um custo extremamente elevado para todos os bancos, e tecnologia, há possibilidade de fazer algo em que você consiga trazer benefício para o Tesouro. O Rubem [Novaes, presidente do BB] estava na equipe de transição, como eu, então a gente tem uma afinidade de pensamento grande. Claramente é uma separação total dos bancos, mas a gente não tem receio de fazer a pergunta: há possibilidade de fazer alguma joint venture? Isso existe na Tecban, na Cielo, na CIP. Vejo isso mais em operações que geram receita, será que a gente não pode fazer algo parecido em operações que reduzam despesa? Certamente vou levar ao Rubem porque acho que faz sentido, respeitando governança e compliance.

Valor: Por falar em sociedades, por que o contrato na área de seguros com a francesa CNP teve renovação adiada?

Guimarães: Estou chegando agora e quero analisar. Isso não foi fechado antes então qualquer coisa relevante que venha sob a minha presidência vou avaliar. Há renegociações em vários segmentos de seguros e nesse caso diz respeito a seguros de vida, previdência e prestamista. É uma questão básica, não há como um presidente chegar e referendar uma negociação da qual não fez parte.

Valor: Há alguma outra revisão de contrato, por estratégia ou orientação de governo?

Guimarães: Tem uma revisão de toda a política de propaganda e patrocínio. A reavaliação que pedi para ser feita é até que ponto as propagandas e patrocínios recentes realmente trazem um benefício para a Caixa e para os clientes da Caixa, e isso será reavaliado a fundo. São volumes muito relevantes tanto de patrocínio quanto de publicidade e temos que mensurar quanto um real de publicidade traz de negócios. Não adianta fazer propaganda ou patrocínio por fazer. Quando está na camisa de um time de futebol, cria um relacionamento, traz folha de pagamento, faz venda de seguros ou não?

Valor: A Caixa deve desaparecer de vez das camisas de futebol?

Guimarães: Isso já está acontecendo por uma questão do TCU [Tribunal de Contas da União], que publicou acórdão suspendendo e vamos respeitar. Teremos um alinhamento muito grande com o TCU.

Valor: Alguns vice-presidentes foram escolhidos antes de sua nomeação. Haverá alteração?

Guimarães: Quatro vice-presidentes escolhidos, quatro estão em processo de escolha e mais quatro a serem definidos. É um processo ótimo de governança com uma empresa terceirizada de recrutamento. O importante é o alinhamento. Se algum vice-presidente não atingir meta, posso escolher outro. Todo VP tem que dar ‘delivery’. Tem metas e tem que cumprir e, se não forem cumpridas, nada impede que seja feita uma nova escolha. O que existe de regra é que essa escolha seja feita com critérios específicos e com a participação do conselho. É uma regra um pouco diferente mas não tenho problema com isso.

Valor: A ideia de segregar o banco digital e listá-lo em bolsa, cogitada na gestão anterior, permanece?

Guimarães: Não faz sentido separar. O Bradesco ou o Itaú tem participação de terceiros no banco digital? A Caixa tem que ter operação digital, mas 100% da Caixa, como é no Banco do Brasil.

Valor: Algum ativo da Caixapar será vendido?

Guimarães: É uma discussão contínua. Certamente todos os investimentos da Caixapar serão avaliados em seu racional e maturidade de venda, ativo a ativo.

Valor: Será um desafio pessoal lidar com a burocracia de estatal?

Guimarães: Comecei uma aproximação já no período de transição com os órgãos de controle, o que me mostrou justamente porque vou reavaliar todos os processos. A partir do momento em que a caneta é minha, é a minha responsabilidade. Os órgãos de controle querem o melhor para a Caixa. Por isso eu gosto da abertura de capital. Nada é mais claro para formação de preço que um IPO, no processo de bookbuilding e, para follow-on, tem preço de tela. Tive mais de dez reuniões com o TCU em duas semanas, com envolvimento desde o ministro e procurador aos técnicos. Queremos fazer um treinamento de governança no TCU para vice-presidentes, diretores e gerentes da Caixa, para o banco deixar de ver o TCU como inimigo e ver como aliado.

Valor: Qual é o risco de ingerência na Caixa neste governo?

Guimarães: Na Caixa não sinto a mais leve ingerência política. O que tem no meu “job description” é entregar coisas muito objetivas. O controlador define o conselho da Caixa, que ainda está em processo de mudança, e não faço parte dessa escolha. É uma escolha do ministro e não tenho dúvida que será alguém com a mesma cabeça, no sentido de aumentar governança e buscar capitalização da Caixa.

Valor: Por que deixar a sociedade em um banco de investimento para assumir um banco público?

Guimarães: Isso tem um histórico de 22 anos. Quando decidi estudar fora, não teria conseguido fazer doutorado se não fosse a bolsa Capes. Perdi meus pais cedo, eles nunca tiveram dinheiro, e essa bolsa foi fundamental. Desde aquela época queria devolver ao país de alguma forma o presente que recebi. Nesses 22 anos, talvez o que eu mais tenha estudado foram os bancos estatais. A primeira vez que escrevi um relatório de research foi sobre Banespa e BB, que fizeram parte da minha tese de doutorado. Participei das privatizações de vários bancos e, quando voltei para o Brasil depois da tese, comecei a focar na área de investimento e fiz mais de 30 operações de abertura de capital e follow-on. Fiz praticamente todas as aberturas de capital de bancos médios e seguradoras. Acredito muito no potencial que o mercado de ações tem de transformar uma companhia.

Fonte: Valor Econômico

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